
Ao contrário do temido radical saudita, o Bin Laden maranhense não ameaçava ninguém, nem dinheiro pedia. Às vezes, era interpelado por algum transeunte, mas se esquivava e seguia seu rumo. Sim, é verdade, há pouco menos de uma década, os desocupados que circulavam pela Praia Grande tinham senso de civilidade e alguns (somente os mais bacanas) também eram bem-humorados e performáticos. A área estava longe de se transformar em reduto de viciados em crack. Era basicamente frequentada por artistas, universitários, turistas, comerciantes, funcionários públicos e muitos, muitos cães sem dono.
A qualidade do entretenimento oferecido também era melhor, os bares ainda não tinham caído em desgraça, disseminando poluição sonora com pagode barra pesada, no lugar do tambor de crioula e do reggae, por exemplo. Os órgãos de cultura não estavam sucateados e ofereciam programações constantes e variadas.
Mas voltando ao assunto inicial, numa certa manhã, o nosso Bin Laden manifestou-se verbalmente pela primeira vez. Ao entrar na livraria Poeme-se, encarou sem mais nem menos o dono do estabelecimento, o Riba do sebo, e disse de forma veemente: "Você pensa que vida de vagabundo é fácil??!! Não é fácil não! Vagabundo sofre muito, meu amigo". E saiu, sorrateiramente.
Logo depois, em dezembro de 2002, um grupo de artistas de São Luís, incluindo o designer Cláudio Vasconcelos, o artista plástico Paulinho César, o fotógrafo Márcio Vasconcelos, o compositor Júnior Aziz e o repórter que vos escreve, realizaram num final de semana uma intervenção no bar do Adalberto, extinto reduto de poetas, artistas e boêmios da Praia Grande. Naquela manhã de sábado, eis que surgiu o Bin Laden timbira com o tradicional turbante improvisado, dançando sob o sol escaldante, em frente ao bar, ao som de música árabe, uma cortesia da trilha universal que programamos para "iluminar" o evento.
O premiado fotógrafo Márcio Vasconcelos não perdeu tempo e fez algumas imagens daquela "figura". Uma delas ilustra este texto. Esta talvez tenha sido a última importante aparição do Bin Laden da Praia Grande. Pouco tempo depois, soube que tinha falecido, se não estou enganado, em decorrência de um ataque cardíaco. Foi curta a passagem do Bin Laden da Praia Grande, bem mais rápida do que a do terrorista. Morreu, sem deixar discípulos.
* Eduardo Júlio é poeta e jornalista.