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domingo, 23 de novembro de 2014

KAIRÓS

Tudo começou com o ônibus errado. Ele deu voltas por ruas nunca dantes navegadas. Desci a esmo. Perdido. Fazia muito frio. O dia tinha cor de chumbo. Dava vontade de ter um pincel gigante para colorir o céu com manchas de tinta guache.

Andei a esmo, sem GPS, com os meus sentidos trocados: as orelhas farejavam, as narinas ouviam e os olhos saboreavam as paisagens.

O corpo retorcido pelo frio animou-se com uma sonoridade longínqua que invadia a rua como um cheiro café matinal tomando conta da casa.

Aquele som convidava a um banquete musical. E foi me guiando até chegar a um charmoso sobrado antigo. Da sacada pendia uma placa onde estava escrito “Morada dos Artistas”.

Ao pé das duas folhas rústicas da porta o tapete era ainda mais convidativo: “entre sem bater”. A única batida permitida era a do coração, ao escutar o som vindo da parte superior do prédio, acessada por uma escada circular de madeira.

Àquela altura do dia, cada degrau era uma epopeia, narrada pela imagem acústica que me aguardava acima.

Ao centro da sala, cercada por uma audiência exótica disposta em círculo, uma mulher tocava violoncelo.

Mas, não era o simples manejo de um instrumento. Ela fazia uma cópula musical naquele instante mágico brindado com a chuva que começava a cair aos primeiros acordes da suíte número 1 de Johann Sebastian Bach. 

Das janelas, os pingos escorriam pelas vidraças como se bailassem para celebrar os sons dos anjos em estripulias com suas harpas imaginárias.

Aquela manhã foi uma celebração à beleza. Toda a harmonia da natureza sintetizava a cena da mulher de cabelos longos abraçada ao violoncelo.

Ela domava o instrumento com a habilidade de um toureiro na arena. A sessão musical era um filme de Almodovar. As 70 partes do violoncelo plasmavam-se naquela fêmea em riste. Os dois compunham, enfim, um só corpo.

Os cabelos dourados dela esparramavam-se sobre o instrumento, apertado contra o corpo pelo entrelace das pernas torneadas, enquanto a música atravessava o universo.

O violoncelo parecia uma extensão do corpo da artista, como se fosse seu útero dilatado pela gravidez da música. Ela estava prenha dos sons divinos que gerava a cada combinação entre o deslizar da vareta sobre as cordas e o movimento dos dedos no braço do cello.

Na mitologia grega, Kairós é filho de Cronos, deus do tempo e das estações. A palavra designa também o momento certo, oportuno, supremo.

Nos dias de muito frio em Porto Alegre, eu sempre pensava no tempo bom que viria depois. Agora, estamos na primavera. Dias ensolarados e coloridos, bons para escrever sobre as memórias do tempo frio.

Aquele momento mágico foi meu kairós, o instante eterno mais que perfeito eternizado pelos meus sentidos permutados.

Ela tocava a balada de Deus.
Ouça AQUI uma ilustração dessa crônica.

sábado, 22 de novembro de 2014

FAXINA DE DILMA É UMA FACA DE DOIS GUMES

Inspirado em Maquiavel, o PT trabalha com a ideia de manter e ampliar o poder. Nesse sentido, o partido já está em campanha para 2018.

Antes de começar o segundo mandato, a presidente Dilma tenta dar respostas ao grito latente das ruas pelo fim da corrupção, mandando cortar na própria carne.

Só o tempo e as pesquisas vão mensurar o impacto das investigações e prisões da Operação Lava-Jato.

A corrupção foi grande em todos os governos, incluindo o PSDB, mas a bomba explodiu nas mãos do PT.

Se a roubalheira fosse em um governo do DEM, por exemplo, seria normal. O excesso de corrupção nos governos Lula e Dilma assustou mais porque o PT era a promessa de ética e honestidade.

O fator surpresa e a decepção arranharam a imagem do PT.

Só há um jeito de consertar. Dilma está agindo. 

Nunca antes na História desse país houve tantas investigações e prisões.

Mas o efeito dessa navalhada é uma faca de dois gumes.

Dilma pode entrar para os anais da República por uma das interpretações abaixo:

1) Como a presidente que fez a maior faxina do Brasil;

2) Como a coveira do seu próprio partido e governo, enterrando o projeto de ampliação do poder petista em 2018.

O eleitorado pode entender a faxina de um jeito ou de outro.

Dilma será absolvida porque mandou prender, mas pode ser condenada porque a corrupção chegou ao limite justamente no governo dela e no partido - PT - que prometia o avesso da roubalheira.

A navalha corta dos dois lados.

VEREADOR DE CAXIAS, ADELMO SOARES SERÁ O SECRETÁRIO DE AGRICULTURA FAMILIAR

Adelmo Soares será o secretário de Agricultura Familiar, pasta a ser criada na gestão Flávio Dino. O anúncio foi feito pelo governador eleito na manhã desta sexta-feira (21) através das redes sociais.

Esta foi uma das bandeiras da campanha de Flávio Dino. A Secretaria atuará na reestruturação de todo o sistema administrativo de apoio e assistência técnica à agricultura familiar, com destaque para a Agência Estadual de Pesquisa Agropecuária e de Extensão Rural do Maranhão (Agerp) e Instituto de Colonização e Terras do Maranhão (Iterma). Esses dois órgãos passarão a ser vinculados à Agricultura Familiar.

A nova pasta atenderá mais de dois milhões de agricultores familiares do estado no incentivo à produção no campo. Uma das prioridades da próxima gestão é investir na produção de alimentos para fomentar a geração de renda, ampliar o mercado interno e melhorar a qualidade de vida da população maranhense. 

Conheça o perfil do novo indicado: 

ADELMO SOARES – Secretaria de Agricultura Familiar
Adelmo Soares atuou na criação da Secretaria de Trabalho de Caxias. Possui destacada atuação em gestão e administração pública. Foi secretário de Esporte de Caxias. É vice-presidente do PCdoB em Caxias e está no terceiro mandato de vereador. Coordenou a campanha da coligação “Todos pelo Maranhão” na região Leste do estado. É graduado em Odontologia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). 

Coligação Todos pelo Maranhão - Flávio Dino 65

UFMA IMPERATRIZ: OITO ANOS ATRÁS, AGORA

Marcos Fábio Belo Matos – professor doutor do Curso de Jornalismo da Ufma Imperatriz

marcosfmatos@gmail.com

No dia 16 de novembro de 2006, a Ufma de Imperatriz dava início às atividades dos seus novos cursos de graduação: Enfermagem, Engenharia de Alimentos e Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo. Os novos cursos chegaram para se somar aos já existentes, Ciências Contábeis, Direito e Pedagogia, que já tinham, então, quase 25 anos de fundação.

Era um campus acanhado que, com a vinda desses novos cursos, acabava por se transformar em Centro de Ciências Sociais, Saúde e Tecnologia (CCSST) e ganhar uma nova forma de gestão, podendo, por exemplo, ter um Conselho de Centro, coordenações próprias e gerir seus próprios cursos.

A iniciativa de criar esses novos cursos estava vinculada ao projeto de expansão da Ufma e de interiorização das universidades brasileiras, capitaneado pelo MEC. A expansão fez com que a Ufma, hoje, conte com oito unidades no interior do Estado: Imperatriz, Codó, Bacabal, Balsas, Grajaú, Pinheiro, São Bernardo e Chapadinha.

Com a criação dos novos cursos, o panorama da Ufma em Imperatriz também mudou – e para melhor. O quadro de professores passou a contar com mestres e doutores, pois, como exigência de qualificação, o MEC só permitia abrir concursos para professores com mestrado ou doutorado. Isso fez também com que surgisse um cenário para o crescimento, exponencial, de projetos e pesquisa e extensão.

Outra mudança importante se deu na ocupação do campus. Antes com atividades noturnas, o campus passou a ter uma movimentação em todos os seus turnos, aumentando a sensação de “vida universitária”.

Vida universitária também no que toca aos eventos que passaram a acontecer com mais frequência – congressos, simpósios, seminários, minicursos, viagens estudantis, trotes, calouradas e outras comemorações.

A Ufma ganhou uma identidade, enfim. Tanto que, pouco tempo depois de os cursos começarem, foi pintado o nome “Universidade Federal do Maranhão” nos muros do prédio.

Depois dessa primeira fase da expansão, veio outra. Em 2010, chegaram mais dois novos cursos: Licenciatura em Ciências Humanas e Licenciatura em Ciências Naturais, que depois ganharam, respectivamente, as ênfases em Sociologia e Biologia.

E, por fim, estamos na fase da terceira expansão, quando conseguimos implantar o Curso de Mestrado em Ciência dos Materiais (o primeiro deste nível em toda a região tocantina) e o Curso de Medicina.

Entre as expansões, algumas vitórias: conquistamos uma nova unidade acadêmica, a Unidade Avançada do Bom Jesus, para onde foram alocados os cursos de Enfermagem, Engenharia de Alimentos, Licenciatura em Ciências Naturais, Medicina e o Mestrado em Ciência dos Materiais; ampliamos o número de projetos de pesquisa (hoje temos 19 em andamento) e de extensão (hoje contamos com cinco em atividade); aumentamos o número de bolsas de assistência estudantil; ampliamos o nosso acervo bibliográfico e de periódicos.

Muitos desafios ainda necessitam ser vencidos, porém. É preciso melhorar a infraestrutura da Unidade Bom Jesus (física, de telefonia e internet e de acessibilidade); implantar um restaurante universitário naquela unidade, dada a natureza diuturna dos cursos e a distância que ela fica de outras regiões com mais serviços; garantir o atendimento mais qualitativo das necessidades, principalmente, de segurança e transporte público, para o conforto e o bem-estar da comunidade que estuda a trabalha no Bom Jesus; melhorar a quantidade de espaços físicos na Unidade Centro, para abrigar novas demandas por unidades administrativas (salas de núcleos de pesquisa, projetos de extensão, novos laboratórios, coordenações de cursos de pós-graduação, por exemplo).

Oito anos atrás, a Ufma em Imperatriz era apenas um sonho possível, pois tudo estava para ser feito. Hoje, oito anos depois de iniciar seu processo de consolidação da expansão, somos uma realidade – que ainda precisa de um melhor formato, é certo; mas que já tem uma identidade definida de universidade.

FLÁVIO DINO ANUNCIA DOMINGOS DUTRA PARA A SECRETARIA DE REPRESENTAÇÃO INSTITUCIONAL E MAIS SEIS NOMES DA EQUIPE DE GOVERNO

O governador eleito Flávio Dino anunciou mais sete nomes nesta sexta-feira (21) para a sua equipe. São eles os comandantes das polícias Militar, Civil e do Corpo de Bombeiros, o chefe do Gabinete Militar, o secretário de Representação Institucional no Distrito Federal e o presidente do Iterma. Todas as indicações foram feitas através das redes sociais.

No Programa de Governo, Flávio Dino apresenta quais as principais metas que pretende alcançar na área da segurança. Entre as quais, o combate ao tráfico de drogas, o aumento progressivo do número de policiais e bombeiros, além do investimento em equipamentos.

Além disso, propõe a implantação do Pacto pela Vida para articular políticas de prevenção e repressão ao crime. Apresenta também como compromisso, colocar em funcionamento as novas unidades prisionais em construção com recursos federais e humanização da execução penal com métodos como a Apac - Associação de Proteção e Assistência aos Condenados.

Para atuar na área da Segurança Pública do Maranhão, Flávio Dino já havia anunciado os secretários Jefferson Portela (Segurança Pública) e Murilo Andrade (Administração Penitenciária). Nesta sexta-feira (21), indicou os seguintes nomes para os comandos da Polícia Militar e Corpo de Bombeiros:

CORONEL MARCO ANTONIO ALVES DA SILVA - Comandante Geral da Polícia Militar

CORONEL RAIMUNDO NONATO SANTOS SÁ - Subcomandante Geral da Polícia Militar

CORONEL CÉLIO ROBERTO PINTO DE ARAÚJO - Comandante Geral do Corpo de Bombeiros Militar

Conheça o perfil dos demais indicados desta sexta:

MAJOR EVERALDO FERREIRA SANTANA - Chefe do Gabinete Militar

Everaldo Ferreira Santana é bacharel em Segurança Pública (UEMA), especialista em Policiamento Montado (PMDF), instrutor de Equitação do Exército (EsEqEx) e técnicas de Proteção de Dignitários (Paraná). Na carreira militar, atuou na Cavalaria, no 8º Batalhão de Polícia Militar e Gabinete Militar do Governo. Atualmente, está Corregedoria Adjunta da PMMA. Major Santana tem formação em Direito, mestre em Direito Constitucional e pós-graduando em Ciências Penais. É professor universitário de Direito Constitucional e Direito Penal.

DOMINGOS DUTRA - Secretário de Representação Institucional no Distrito Federal

O deputado federal Domingos Dutra será o responsável por representar o Governo do Maranhão na articulação junto aos órgãos do Governo Federal para efetivação de programas e projetos de interesse do estado. Dutra é formado em Direito pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Possui destaca atuação na Câmara Federal na defesa da população maranhense.

MAURO JORGE – presidente do Instituto de Colonização e Terras do Maranhão (Iterma)

Mauro Jorge assume a presidência do Iterma com a meta de executar a política agrária do Estado, atuar no reconhecimento de posses legítimas e titularizar os respectivos possuidores. O próximo presidente do Iterma foi deputado estadual e vice-prefeito de Lago da Pedra. É empresário e formado em Administração de Empresas.

AUGUSTO BARROS NETO - Delegado-geral da Polícia Civil

Augusto Barros será o próximo delegado-geral do Maranhão. É formado em Direito (UFMA) e pós-graduando em Cidadania, Direitos Humanos e Gestão em Segurança Pública. Atualmente, é delegado-geral adjunto do Maranhão e coordenador do Laboratório de Combate à Lavagem de Dinheiro – convênio com o Ministério da Justiça a ser implantado pela Polícia Civil no próximo ano. Foi delegado de Mirinzal e Santa Helena, chefe do Departamento de Combate a Roubo de Cargas e chefe do Departamento de Operações Táticas Especiais. Atuou também como superintendente de Investigação Criminal e superintendente da Superintendência Estadual de Investigação Criminal (Seic).

PCdoB São Luís
Assessoria de Imprensa

O NOVO GOVERNO DO MARANHÃO E OS OBJETIVOS DO MILÊNIO

Paulo Melo Sousa *

O governador Flávio Dino irá receber um estado emaranhado num vespeiro. Serão agudos os problemas a enfrentar, com vários nós górdios à espera de quem os desatem. O mais importante nó da antiguidade Alexandre Magno desatou com a argumentação do fio da espada, há mais de dois mil anos. Nos primeiros suspiros do terceiro milênio, contudo, as soluções para problemas crônicos em lugares como o velho Maranhão precisam de outras ações, tanto enérgicas quanto criativas. É grave a situação da educação, saúde pública, segurança. Há desemprego, pobreza, miséria, ausência de garantia dos direitos humanos, enfim, grassa a falta da qualidade de vida, dentre outras pragas apocalípticas.

No bojo dessa Caixa de Pandora repousa o fantasma do desperdício. Um dos focos da questão se relaciona com a corrupção (mas, não somente ela), que deve ser entendida como doença que atinge não apenas a classe política ou a administração pública, mas que se instala no cotidiano da sociedade, em pequenos atos como furar uma fila, lucrar com um troco errado. Anualmente, nada menos que 1 trilhão de reais escorre pelo ralo do desperdício, no Brasil. Isso equivale ao PIB anual da Argentina. 

A cada mil reais produzidos no país, 250 reais são jogados fora, por conta de incompetência do Estado e do setor privado, falhas de logística e de infraestrutura, burocracia excessiva, descaso, corrupção e falta de planejamento.

Desse total, dentre outros, 70 bilhões de reais são devorados pela corrupção, 13 bilhões ficam por conta do desperdício estimado de faturamento anual das distribuidoras de água, e nada menos que 700 bilhões são deixados de se arrecadar com a presença do comércio informal. Dados da Transparência Brasil para que se faça uma competente lição de casa. Então, evitar o desperdício significa melhorar a qualidade de vida da população, assim como assumir ações afirmativas.

Um dos caminhos que podem ser trilhados pelo programa de governo do futuro mandatário do Maranhão, visando tirar o estado da situação de detentor do segundo pior Índice de Desenvolvimento Humano - IDH do país aponta, por exemplo, para a incorporação dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio – ODM, proposição global surgida num documento seminal, a Declaração do Milênio, elaborada pela Organização das Nações Unidas – ONU, e que foi adotada pelos 191 países membros da Organização, no dia 8 de setembro de 2000. A ideia partiu da necessidade de se sintetizar a essência dos mais diversos acordos globais firmados entre os países ao longo dos anos noventa, nos quais foram propostas ações sobre a questão ambiental, desenvolvimento social sustentável, racismo, direitos das mulheres, educação, combate a doenças globais, dentre outras.

A partir daí os países se comprometeram em cumprir, em prazos determinados, uma série de metas que, se respeitadas, deverão melhorar a qualidade de vida da humanidade ao longo deste século. A inclusão dessa importante agenda em programas de governo internacionais, nacionais e locais tem marcado a gestão de governantes sérios, comprometidos com a criatividade e a inovação. As propostas contidas nos oito Objetivos do Milênio, com suas 24 metas, no caso do Brasil, se implantadas de fato, podem ser mensuráveis, cabendo à população não apenas cobrar de seus governantes a aplicação dos Objetivos, mas também colaborando de forma efetiva, participativa, no intuito de se atingir os compromissos assumidos.

As ações pragmáticas de todos os ODM, sem exceção, precisam ser urgentemente implantadas no Maranhão. O primeiro objetivo (erradicar a pobreza e a fome) se aplica diretamente à realidade timbira, já que o estado apresenta o segundo pior IDH do país. Nesse contexto, entra a renda per capita da população, que é dramática. Temos o sério problema de falta de emprego, o que é responsável por ausência de renda; além disso, ao home do campo falta terra para plantio (num estado onde impera o latifúndio), bem como o domínio de técnica para cultivo. Isso impede o consumo e gera a fome.

O segundo objetivo do milênio (atingir o ensino básico universal). É preciso matricular as crianças, garantindo ensino de qualidade para que essas crianças concluam de fato o ciclo básico, resultando em adultos alfabetizados e capacitados como profissionais, com direito, assim, à cidadania. Numa projeção desse investimento, é preciso garantir mais vagas em universidades a esses alunos, futuramente, entrando aí o planejamento estratégico.

A promoção da igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres constitui o terceiro ODM, lembrando que dois terços dos analfabetos do mundo são mulheres, bem como 80% dos refugiados. É preciso superar desigualdades entre meninos e meninas no acesso à escola, combater a violência contra a mulher, sensibilizar os homens com relação a uma paternidade responsável, criar um novo padrão familiar. No Maranhão, a situação da mulher, apesar dos avanços, ainda é deplorável, sobretudo no meio quilombola rural, de maioria negra, entre os indígenas e as lavradoras, marisqueiras, coletoras, como é o caso das quebradeiras de coco babaçu, apesar de algumas conquistas feitas nos últimos anos.

O quarto objetivo do milênio (reduzir a mortalidade infantil) é tarefa árdua. No Maranhão, essa meta está umbilicalmente ligada à saúde. Falta de saneamento básico mata. Há dois anos uma criança morreu a bordo de uma embarcação, numa travessia de Alcântara para São Luís, vitimada por infestação por vermes. Um simples comprimido evitaria essa morte. Faltam postos de saúde, água filtrada, o mínimo de educação, que forneceria, pelo menos, algumas noções básicas de higiene, evitando esse tipo de tragédia.Melhorar a saúde materna, o quinto objetivo do milênio, está relacionado com os dois objetivos anteriores. Em países como o Brasil, a cada 48 partos ocorre óbito da mãe, culpa da falha dos sistemas de saúde pública, que ainda são sofríveis. A questão da saúde está ligada ao sexto objetivo do milênio, que é combater o HIV/AIDS, a malária e outras doenças, como é o caso recente do Ebola e, um pouco antes, a gripe aviária, a febre da vaca louca, dentre outras.

Na pauta do dia, garantir a sustentabilidade ambiental é o sexto objetivo do milênio. Um bilhão de pessoas, em todo o mundo, ainda não possui acesso à água potável, bem como ao saneamento básico. Basta citar o caso recente da falta de água em São Paulo, que está afligindo a população da maior cidade do Brasil, que enfrenta racionamento há meses. Aqui se indica a adoção de políticas e programas ambientais na esfera pública, com sustentabilidade.

No mundo contemporâneo, a palavra de ordem é a preservação ambiental, diante dos índices alarmantes que, ao longo dos últimos anos, vem sendo divulgados sobre a sistemática agressão ao meio ambiente, fruto de uma ideia equivocada de produção em massa, herança da revolução industrial, que imaginava infinitos os recursos naturais. A preocupação está no cardápio da sociedade moderna, e cada país tem assumido compromissos que visam minorar tais danos. Nesse contexto, surgiu a necessidade de se trabalhar com a proposição do desenvolvimento sustentável, agregando os componentes de um crescimento econômico racional, inclusão social justa e conservação ambiental responsável.

O antigo método científico, cartesiano, herança do século XVIII, falhou, e atualmente a visão sistêmica é acionada na análise da física, biologia, medicina e ciências humanas, constituindo assim um novo paradigma, que inclui a interdisciplinaridade, e que representa um alicerce sobre o qual cientistas, pesquisadores, filósofos e intelectuais contemporâneos dos mais diversos segmentos sustentam suas análises e práticas.

Cabe apenas aplicar o novo paradigma, buscar ideias criativas (em texto futuro acenaremos com algumas propostas), pois foi em épocas de crise que surgiram as descobertas mais importantes para o progresso humano. E uma das maneiras de se trabalhar essa questão de forma diferenciada é estabelecer uma parceria mundial para o desenvolvimento, o oitavo objetivo do milênio, o que inclui redução da dívida externa dos países pobres endividados. No varejo, capacitação de profissionais, acesso a mercado e tecnologia (lutar pela autonomia tecnológica do Centro de Lançamento de Alcântara, por exemplo), favorecendo o crescimento dos pequenos e médios produtores, com concorrência cooperativa entre eles, para promover mutirões de recursos e para que atinjam economia de escala.

Enfim, agindo de forma integrada, com a consciência de que é preciso trabalhar de forma emergencial, mas também com o olhar no futuro, combatendo o desperdício, a corrupção, acionando práticas eficientes, de mãos dadas com a contemporaneidade e trabalhando de forma coerente, transparente e sistemática o Maranhão voltará a ocupar lugar de destaque na estrutura da nação.

* Paulo Melo Sousa é jornalista, escritor, pesquisador de cultura popular, Mestre em Ciências Sociais.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

DO PIB AO IDH – A EVOLUÇÃO DE UM CONCEITO

Josemar Sousa Lima *

O jornal "O Estado do Maranhão", na sua edição de 15/11/2014, traz a seguinte manchete: "PIB DO MARANHÃO É DE 58 BILHÕES e oferece detalhes - Produto Interno Bruto do estado cresceu 12,8%: de R$ 52,1 bilhões para R$ 58,8 bilhões de 2011 para 2012, segundo divulgou ontem o IBGE. Resultado do Maranhão é o 4º do Nordeste e 16º do país"

Esta manchete diz muito, pois o aumento do PIB foi sempre o argumento utilizado pelo modelo "jorgemuradiano", adotado desde o primeiro governo Roseana, para contrapor a situação de miséria extrema em que se encontra Maranhão, mesmo com o alívio de transferência de renda direta realizado pelo Governo Federal.

Esse padrão de desenvolvimento excludente, onde a ênfase é apenas a formação da renda, sem nenhuma preocupação com sua distribuição, é o legado dos governos Roseana Sarney. Agora vem o novo governador e elege a elevação do IDH do estado como uma meta estratégica e isso muda tudo!

Acho que o primeiro grande desafio do governo vai ser interno: Como semear na nova equipe a ideia de que ao optar pelo IDH, o governo opta também pela adoção de um novo padrão de desenvolvimento, com novos pressupostos políticos e éticos, tendo em vista que a adoção do Índice de Desenvolvimento Humano para mensuração do desenvolvimento vem da evolução de um conceito vinculado à sustentabilidade.

O IDH se vale de três dimensões básicas do desenvolvimento que são: Uma vida longa e saudável; O acesso ao conhecimento; e um Padrão de vida decente. Assim, os Planos, Programas e Projetos formulados e que forem implementados pelo novo governo, têm que inverter todas as estratégias e prioridades governamentais utilizadas nos últimos 400 anos no Maranhão:

A Equidade e o aumento da Qualidade de Vida da população passam a ser os objetivos centrais de quaisquer planos, programas, projetos ou ações governamentais executadas em qualquer das estruturas de governo;

A Eficiência e o Crescimento Econômico, menina dos olhos do governo Roseana, são pré-requisitos fundamentais, necessários, mas não suficientes para alcançar o desenvolvimento;

A Conservação Ambiental passa a ser o condicionante principal para garantir a melhoria da qualidade de vida das pessoas e a eficiência econômica (lucro) das empresas no longo prazo;

A Democracia e a Participação da Sociedade constituem um objetivo e, ao mesmo tempo, um meio para assegurar a equidade social; e

O Avanço Tecnológico é o fator decisivo para alterar a forma de aproveitamento econômico dos recursos naturais.

Nada a ver mais só com PIB que cresce mesmo sem políticas públicas estaduais, sem diretrizes estratégicas, sem compromissos com o futuro. PIB é música de uma nota só; IDH é sinfonia!

Elevar a posição do estado do nível atual do IDH (26º) para o patamar do PIB (16º) é uma tarefa desafiadora: O estado do Maranhão tem que avançar 10 posições em quatro anos e, por mais paradoxal que pareça o maior desafio é no IDH/Renda onde, pelo PIB, o Maranhão é um estado rico e pelo IDH é rico, mas vergonhosamente desigual na distribuição dessa riqueza, tornando-se pobre.

Como desconcentrar um PIB quase que totalmente formado por investimentos de grandes empresas ou criar outros mecanismos de geração de renda, como investimentos em uma nova matriz tecnológica para uma nova a agricultura familiar, digo, produção familiar, que vá além da agricultura, para o Maranhão? O Maranhão para chegar ao status de 16º IDH, lugar atualmente ocupado pelo estado do Rio Grande do Norte, terá que deixar pra trás os estados do Pará, Piauí, Paraíba, Bahia, Acre, Sergipe, Pernambuco, Amazonas e Ceará.

Isso implica num aumento de 7,04% no IDH atual, passando de 0,639 para 0,684, e ainda ficaria situado numa faixa de estados com Médio IDH. Para alcançar os estados com status de Alto IDH teria que avançar um pouquinho mais e chegar a um IDH de 0,700. Haja fôlego!

* Josemar Sousa Lima é economista, com especialização em Desenvolvimento Rural Sustentável e Consultor do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura – IICA.