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quinta-feira, 13 de junho de 2013

SEU ADALBERTO, TIMONEIRO DO ÚLTIMO BOTECO DA PRAIA GRANDE


Adalberto, seu fiel ajudante e Eduardo Julio: o bar era lugar para beber, conversar e pensar
Por Eduardo Júlio - poeta e jornalista
 
O bar já existia, mas não me lembro exatamente do ano em que o seu Adalberto surgiu como proprietário daquele adorável boteco sujo, humilde e improvisado, localizado na Praia Grande. Acho que foi por volta de 1993. Embora bastante sério, aquele senhor conquistou a simpatia de muitos que gostavam de beber uma cerveja ou doses de cachaça da terra, aproveitando o fim de tarde no Centro Histórico de São Luís, quando “o céu desaba o seu azul sobre os telhados do mundo”, como um dia escreveu o poeta Roberto Piva.
 
Naqueles tempos, a Praia Grande era um espaço lúdico e sereno. Estava longe de se tornar reduto de ladrões e de viciados em crack. A malandragem era outra. Artistas e universitários disputavam espaço nos botecos, dando luz à vida boêmia da cidade.
O bar era "sagrado" para o encontro de amigos na Praia Grande boêmia
No Bar do seu Adalberto, jovens e senhores conviviam em harmonia, dividindo mesas na calçada da rua atrás do Odylo, ou as poucas banquetas do balcão, conversando sobre literatura, cinema, fotografia e música. Às vezes, a respeito de política. E, é claro, sobre todos os amores do mundo.

Ele tinha fama de vender cerveja quente. O freezer do bar, de fato, nunca funcionou direito. Chamávamos de as naturais do seu Adalberto. O banheiro também era um horror. Mas ninguém deixava de beber por lá. O local foi ponto de encontro, durante mais de 12 anos, de artistas, poetas, jornalistas, músicos, militantes, vagabundos, hippies, estivadores, estudantes, funcionários públicos, entre outros tipos comuns de uma São Luís simplória, espontânea e pacífica.
Fim de tarde, os frequentadores começavam a ocupar as calçadas do Adalberto
Nos anos 90 e começo dos 2000, era batata. Ninguém precisava marcar encontro. Se a gente queria encontrar algum amigo, era só passar por lá em qualquer dia da semana.

Em 2002, para melhorar o visual do bar, fizemos uma divertida intervenção “estética” no estabelecimento. Foi num sábado e vários artistas colaboraram com a causa, entre os quais, o jornalista que vos escreve, Junior Aziz, Cláudio Vasconcelos, Márcio Vasconcelos, Paulo César, Romana Maria, Gutemberg Wendell, Bin Laden da Praia Grande, Carolina Cécio, José Siqueira e Janete. Alguns anos antes, o poeta Paulo Melo Souza já tinha feito algumas atividades para arrecadar dinheiro com o intuito de melhorar o espaço.

Além dos já citados, muitas pessoas famosas, ou não, frequentaram aquele boteco. Vou tomar a liberdade de citar outros amigos e conhecidos, que estiveram presentes no local em diferentes épocas: Geraldo Iensen, Dyl Pires, Cynthia Martins, Rafael Bavaresco, Wilson Marques, Wilson Martins, Ed Wilson, Riba do Poeme-se, Ópera Night, Totó, Sotero Vital, Mauro Manco, Marcos Magah, Marla Silveira, Nauro Machado, José Maria Nascimento, Zé Maria Medeiros, Ana Gissele, Célida Braga, Raimundo Garrone, Moisés Matias, Valdelino Cécio, Maria Teresa Trabulsi, Cassandra Rodrigues, Hugo Benigno, Márcia Torres, Mondego, Joscelmo Gomes e Elício Pacífico.

Também beberam no estabelecimento Chiquinho, Safira, Hélio Martins, Márcio Loiro, Cláudio Terças, Cláudio Farias, Beto Matuck, Amélia Cunha, Muniz (tio de Alê Muniz), "O Italiano" (que era austríaco), Zequinha, Tião, Bolão, Morcegão, Jorge Nascimento, Fidel, Cibica, Cláudia Matos, Zé Inácio, Fontenele, Moisés Nobre, Márcio Jerry, Fumaça, Gonzaga, Marcelino, Lindinha, Jonilson Bruzaca, Jorgeana Braga, Carlos Pança, Marco Pólo Haickel, Joacy James, Joyce Oka, Sandra Cordeiro, Romana Maria, Adélia (gaúcha), Norma Regina, Samartony Martins, Joedson Silva, Mayron Régis, Rogério Pixote, Luciana Simões (com 17 anos), Angelo Passos, Ubiratan Teixeira, José Ewerton Neto, Fernando (dentista), Herick Murad, entre tantos outros.

Ah, foi lá que surgiu A Vida é Uma Festa, criada por Zé Maria Medeiros. Aliás, foi o último suspiro do boteco. Depois que a brincadeira mudou de sede, o local entrou em decadência.

Sobre o seu Adalberto sabíamos que ele morava no São Francisco e que tinha sido garçom do famoso Moto Bar - que reinou na vida boêmia da cidade nas décadas de 50 e 60 - e do Restaurante Palheta do Aeroporto, frequentado pelas famílias abastadas nos anos 70. De vez em quando, ele se recordava de algum período de sua trajetória e nos contava, com voz baixa, alguma história vaga, que de alguma forma nos emocionava.

A cena cultural que acabei de recordar não existe mais. Em poucos anos, a cidade se transformou num espaço repleto de falso glamour, violência e consumo. As pessoas se dispersaram (muitos desapareceram), o bar fechou por volta de 2007 e seu Adalberto morreu no último domingo.

11 comentários:

Marcos Franco Couto disse...

Grande texto, grandes memórias. Ao ler e ver as fotos as boas lembranças vem à mente. Era realmente "sagrado" passar no bar de seu Adalberto ao menos uma vez por semana, ao sair da Ufma. Tomei muitas, tanto com Ed, quanto com Eduardo, grande abraço.

Carlos Leen Santiago disse...

Bacana Ed esses retratos do cotidiano que nos transportam para ambientes especificos, cheios de vida e exclamações. Publique mais vezes essas coisas. São Luis é uma mistica!!!!

Anônimo disse...

O mundo, esse lugar injusto, assim como o tempo... Tudo se esvai... E eu que amo a Praia Grande, mas ela como as mulheres que amei: tá lá, longe, no passado, num espaço/tempo inacessível e inesquecível. Que o cosmos bem receba o velho Adalba, com sua "gentileza" peculiar. Um abraço a todos os citados no texto, lembro de todos e de mais umas dúzias.
Gerald Iensen

Itaguacy disse...

Lembro-me como se fosse hj desse local fenomenal....me vieram muitas lembranças boas na memória...verdade agente se encontrava lá e nem tinha celular... mas todo mundo se encontrava lá....Seu Adalberto vá em paz...:)

FRANCIMARY disse...

Lembra quando a gente saia da especialização e se encontrava lá? Geraldo sempre estava por lá.

moises matias disse...

E eu! Batia ponto, nos finais de tarde, no bar do seu Adalberto. Bons tempos. Bela homenagem ao senhor Adalberto. Que o bom Deus traga o consolo à sua família. Eudardo e Ed Wilson!

Moisés Matias

ZéMaria Medeiros disse...

"Naqueles tempos, a Praia Grande era um espaço lúdico e sereno. Estava longe de se tornar reduto de ladrões e de viciados em crack. A malandragem era outra. Artistas e universitários disputavam espaço nos botecos, dando luz à vida boêmia da cidade."
Ed, quero te dizer que a Praia Grande continua sendo um espaço lúdico e sereno, que há mais ladrões nos palácios que lá que é habitada por feirantes, comerciantes, artistas, funcionários públicos, que a malandragem continua a mesma despejando nas ruas do Centro Históricos pessoas que são desassistidas de tudo, saúde, trabalho, moradia, educação. que a Juventude frequenta sim a boemia dos nossos casarões. Interessante, tenho notado que quem deixa de frequentar pensa que acabou.

Omar Cutrim disse...

Também tomei muitas cachaças por lá,infelizmente esse alto índice de violência na Praia Grande é resultado do que acontece hoje nas grandes concentrações de turistas,notívagos a procura das baladas,hippies,menores delinquentes,drogados consumidores da mais marginal de todas as drogas e os trabalhadores da noite(garçons,artistas,etc).Tudo isso sem o mínimo de uma verdadeira segurança que garanta o ir e vir dos frequentadores.A crise social e as drogas disseminaram toda essa violência,embora a resistência cultural e o amor dos ludovicenses
afloram juntos com a beleza da nossa Praia Grande.

Eduardo Júlio disse...

Caro Zé Maria,

O distanciamento é necessário para que se perceba melhor a realidade. O texto faz um recorte de um tempo e local específicos. Quer um exemplo: não sobrou nenhum boteco aberto na rua atrás do Odylo.

A Vida é Uma Festa é outra questão exemplar. Há poucos anos, a brincadeira reunia centenas de apreciadores. Hoje, o público é pequeno, embora a programação seja quase a mesma. Alguém sabe explicar o que aconteceu?

E mais: ladrões em palácios, no Brasil, sempre existiram em bandos. Na Praia Grande, eles não passavam por perto no período tratado no texto, que, aliás, foi longo.

Anônimo disse...

Nossa esse texto trouxe muitas lembranças boas de umaturma de amigos realmente especiais.

Marcelo Fontenelle disse...

É muito interessante ver como a memória pinta o passado e o presente.
Eu, por exemplo, fui muito no A vida é uma festa. Antes disso, quando legalmente eu nem tinha idade pra estar lá, frequentei o Chez Moi (quando ainda era um bar onde a gente bebia sentado, e o dono do cyber bar trazia uma cachaça do avó dele, lá de não sei qual interior). Tomei muita cachaça no Corinthiano. Curti muita música autoral de qualidade no Odeon Sabor e Arte e no já citado a A vida é uma festa. Ouvi muita poesia anonima nos cantos ébrios daqueles casarões. Discuti política em todos os lados. Isso, sem falar, por exemplo, no festival BR 135 e na recém inaugurada Casa da Mãe Joana...
Minhas memórias, porém, são de 2000 e muito pra cá.

Tem muita coisa boa acontecendo aí.