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sábado, 28 de maio de 2011

QUESTÃO DE GÊNERO

Há tempos é corrente em setores da sociedade civil, especialmente nos movimentos sociais, fazer abertura de eventos públicos assim: “gostaria de saudar a todos e todas...” ou “saúdo a todos e todas”.

Virou quase uma regra a referência ao gênero feminino, em função dos parâmetros decorrentes de espaços conquistados pelas mulheres.

Certa vez fui chamado às falas por uma amiga, durante uma palestra, quando abri a boca e proferi somente “boa noite a todos”.

Ela disse-me no reservado o novo modo correto de dar boas vindas a uma plenária: “boa noite a todos e todas”, em respeito às mulheres. Seria assim o politicamente correto.

Para fugir da nova regra, tem gente dizendo “boa noite a todas as pessoas deste plenário”. Uma boa saída.

É tão crescente esta prática do “todos e todas” que a chefe do Palácio do Planalto, Dilma Roussef, prefere presidentA a presidentE. Se a língua permite, pod valer.

A medida passou a ser utilizada também nos textos dos sindicatos e entidades assemelhadas. Sempre vem escrito “companheiras(os)” ou “companheiros(as)” com os parênteses adicionando as designações de gênero.


Ocorre que seria impraticável “parentesiar” inteiramente os textos longos. Obrigatoriamente, onde houvesse “o” teria de ter “a” no final das palavras.

Fiquei a observar esse problema até que, um dia, chegou à minha caixa de mensagens um texto “arrobado”.

Tod@s os “a” e “o” finais foram substituídos pela arroba, como se fosse uma solução salomônica para resolver a cansativa colocação de parêntesis.

A arroba é um símbolo hermafrodita. É “a” e “o” ao mesmo tempo agora, tudo em uma só coisa. Um dia desses, trabalhando na madrugada, alguém soltou no twitter um torpedo assim: “bom dia, arrobad@s!”

A @ é masculino e feminino, e, se duvidar, singular e plural. A porção mulher do “o” é invadida pelo “a”. Esta, por sua vez, mora no casulo do “o” à sua volta.

Há um certo erotismo nesses grafismos. Um está dentro d@ outr@, cada qual à sua maneira, mantendo as suas singularidades, mas constituindo uma só universalidade.

Coisas das modernas tecnologias. Impossível viver hoje sem @. Ela veio intempestiva e ficou. Manda e desmanda na internet. Significa o domínio dos nossos endereços eletrônicos.

Ela nos mapeia no universo da WEB, dando a exata localização dos nossos domínios, como se fosse um GPS do ciberespaço.

O que seria do twitter sem @?

A @ está nas nossas vidas como as orações matinais, os copos d’água, o alimento dos textos. Sem ela, quase nada é feito no mundo contemporâneo.

A língua é essa teia mutante, dinâmica, incontrolável, subversiva e aventureira. Uma pele renovável que vai envolvendo a nossa vida e sempre rejuvenescendo.


De repente, com uma rápida manobra no teclado, surge um sentido novo e fica à espreita para observar as nossas reações.


Por exemplo: Se se tira ou põe uma vírgula, ou mudamos de lugar, todo o sentido da sentença é alterado.

Veja:

SE O HOMEM SOUBESSE O VALOR QUE TEM, A MULHER ANDARIA DE QUATRO À SUA PROCURA.

SE O HOMEM SOUBESSE O VALOR QUE TEM A MULHER, ANDARIA DE QUATRO À SUA PROCURA.

Ainda bem que a @ veio para contemplar os dois lados, fazendo valer a rima de Pepeu Gomes: “ser um homem feminino, não fere o meu lado masculino.”

A @ foi incorporada à nossa escrita eletrônica. Demos mil vivas a todas as mudanças. Saudemos a subversão, assim como fizeram muitas mulheres maravilhosas merecedoras de reconhecimento: Chiquinha Gonzaga, Maria Aragão, Maria Firmina, Olga Benário e tantas outras lembradas nesse texto do maio crepuscular de 2011.

Boa noite a tod@s. E bom final de semana.

4 comentários:

Alessandra PT disse...

Uma delícia esse texto. Parabéns!

Lúcia Pacheco disse...

Ótimo texto. Um boa observação sobre a questão do texto referente a mulher. Parabéns!

lilia diniz disse...

fico ótimo o texto querido.
boa semana e um restim de maio iluminado com fachos de luz para os outros que virão.

Lília DIniz

Anônimo disse...

Imagine a cena: antes de uma anunciada tempestade, o leão, "Rei" das Selvas, no afã de se dirigir aos súditos, começar o pronunciamento: boa noite todos macacos, todas macacas, todos galos, todas galinhas, todos porcos, todas porcas... e por ai segue.
Não seria "gramaticalmente correto", em vez de politicamente correto, o "Rei" dizer simplesmente: boa noite todos os animais?
O certo caro Ed, é que o mais fácil cada dia fica mais difícil porque a cada dia se ensina menos e se aprende menos ainda. Antigamente (êta palavrinha moderna e adequada) a professora estava preparada para dar aulas de matemática, aritmética, português, geografia, história, canto orfeônico, desenho, latim e ainda ensinava como "se brincava" na hora do recreio. E os alunos só conheciam o "x" no alfabeto e não para marcar opções de respostas. Sem contar que todos faziam provas escritas e orais e, na prova oral de matemática, geometria ou coisa parecida, o aluno tinha que se dirigir ao quadro (naquela época era "negro" mesmo!) para demonstrar alguma coisa.
Hoje, com o advento do politicamente correto, o professor chega na sala, bate-papo com alguns alunos. Minutos depois, com mais alunos, ele fala: "... agora que o pessoal chegaram, podemos iniciar nossa aula de matemática, de geografia, de biologia."
Mas, Ed, essa coisa está universalizada no conceito e na essência, sempre pensando nesse tal de politicamente correto. Algum dia alguém imaginou que a gloriosa Universidade de Coimbra pudesse oferecer o título de Doutor Honoris Causa ao analfabeto Lula?
E os puxas aplaudem. Mas, não duvide. De alguma forma esses puxas estão se beneficiando dos dólares nas cuecas, dos mensalões e outras imoralidade tão idiotas quanto a esses "todos" e "todas". Coisa de brasilzinho, de ptzinho. Fui! No final Ed, estou triste. Sou "Dinossauro" e não sei como ter uma conta. Por isso estou assinando como anônimo. Perdão.